Isto não é um diário

Hoje, não vos trago um diário. Aliás; trago-vos um não diário.

Zymunt Bauman, nascido na Polónia mas morador em Inglaterra desde 1971, é um irrevogavelmente reconhecido sociólogo dos nossos tempos. De entre as suas numerosas obras, publicou uma a que deu o nome “Isto Não é um Diário” – e é sobre ela de que vamos falar hoje.

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A obra, com um título um tanto quando peculiar, materializa-se naquilo que são as reflexões, satisfações ou insatisfações do autor acerca das mais variadas temáticas mundiais. Aquilo que, de facto, começa por parecer um diário pela sua organização em jeito cronologicamente ordenado, reúne textos curtos e acessíveis e deliberações breves mas que dão que pensar sobre temas contemporâneos, que se debruçam sobre o modo de vida das sociedades modernas. Com entradas simples e sucintas, Bauman consegue levantar o véu acerca de questões que, hoje em dia, representam problemas e situações de pesar mundial, mas que na altura da publicação desta obra ainda se viam como discretas. 

Bauman explica-nos o sentido da sua obra, tendo por inspiração uma outra já escrita por mão de José Saramago, “O Caderno”. O  autor de “Isto não é um Diário” vê o livro de Saramago como o seu não-diário, e remete-nos, exatamente, para a lógica de escrever uma obra neste formato:

«Qual é, afinal, a diferença entre viver e contar a vida? Não faria mal aproveitar uma dica de José Saramago, fonte de inspiração que descobri há pouco tempo. Em seu próprio quase-diário, reflete ele: “Creio que todas as palavras que vamos pronunciando, todos os movimentos e gestos, concluídos ou somente esboçados, que vamos fazendo, cada um deles e todos juntos, podem ser entendidos como peças soltas de uma autobriografia não intencional que, embora involuntária, ou por isso mesmo, não seria menos sincera e verás que o mais minucioso dos relatos de uma vida passada à escrita e ao papel.”

Exatamente.»

 O livro, escrito na primeira pessoa do singular, mostra-nos as inquietações do autor, que surgem em forma de desabafo. Bauman explica-nos inclusivamente que a vontade de escrever esta obra vem um pouco no sentido de colmatar a ausência da sua esposa, funcionando enquanto resguardo da sua solidão recente. O autor explica-nos inclusivamente que, enquanto escrevia “Isto Não é um Diário”, tinha no seu computador uma fotografia da sua falecida mulher – pelo que a escritura da obra funcionaria como que um diálogo entre os dois.

 Assim, se esta obra não é um Diário, o que pode ser? Na minha ótica, aquilo de Bauman transcreve para papel podia perfeitamente ser publicado num Blog, tal e qual como este que nos reúne aqui hoje. E porquê?

 A obra é composta por fragmentos, cada um com reflexões acerca de diversos temas. Sem aprofundar demasiadamente nos assuntos que escolhe analisar, o que o autor faz é levantar questões, ou apresentar breves considerações sobre as suas formas de pensar o mundo, consoante os diferentes âmbitos de reflexão. Bauman presenteia o leitor com algumas das suas divagações, que só convidam que está do outro lado do seu não-diário a ponderarem mais acerca dos temas que deixa em aberto. Tal como num Blog, o autor consegue, em “posts” diários, dar a sua opinião acerca de vários tópicos, juntando os factos àquilo que é a sua forma de ver o mundo. Isto, a juntar à contemporaneidade dos temas que escolhe abordar, reúnem as condições para considerar, se em formato Blog estivessem expostas, as suas opiniões num possível sucesso online.

As temáticas abordadas pelo autor falam sobre “quase tudo” o que diz respeito à contemporaneidade moderna, com uma força de enquadramento que faz ainda mais sentido hoje do que na altura da publicação da obra. Bauman vai desde a falta de perspectiva profissional dos jovens, à perseguição à comunidade cigana roma na França e noutros países europeus, à bolha imobiliária americana, ao dilema eleitoral de Barack Obama, aos países emergentes e a globalização, ao significado da palavra democracia – e tantos outros.

 Da leitura de todas as reflexões de Bauman, podemos verificar que é notória no autor a desconfiança perante a sociedade atual e os seus modos de viver e de estar. O autor considera que a mentira, a corrupção e a futilidade de tornaram banais nos dias de hoje e que essa é uma das características intrínsecas à Humanidade e isso faz com que se aceitem naturalmente em posições de poder e influência pessoas que não são confiáveis. Ao fim e ao cabo, a modernidade reduziu-nos à incerteza e desconfiança, onde não podemos tomar os factos por verdadeiros, à primeira vista. Aquilo que se tomava como seguro e garantido ruiu: as perspetivas de emprego e de rendas estáveis encolheram; laços e parcerias antes sólidos debilitaram-se e fragilizaram-se, muitos faróis da credibilidade supostamente inatacáveis ruíram ou estremeceram sob o peso da corrupção. Os governos, que se esperava que se tornassem novamente de confiança, tornaram-se inseguros e, em vez de imporem ordem à desordem, “cruzaram os braços sem encontrarem alternativas”.

De todo este cenário desmotivante, duas reflexões me cativaram particularmente: a reflexão referente ao estado de revolta dos estudantes da sociedade de moderna, e da influência do consumismo nos dias que correm.

 Bauman refere-se aos estudantes da sociedade moderna como aqueles que vivem com a consciência de que são a geração zero: zero oportunidade; zero futuro. Estes mesmos estudantes revoltam-se perante o panorama empresarial, por saberem que o seu lugar no mercado de trabalho está menos que garantido e que o futuro de muitos deles passará pela frequência de estágios mal empregues ou desemprego a longo prazo. O autor olha para os jovens como os mais prejudicados, uma vez que lhes foram prometidos sucessos e retornos que ainda não viram acontecer, e que tal impotência só os faz cair na raiva. De facto, este episódio marca-me particularmente porque, cada vez mais, se torna um transtorno e uma preocupação crescente: frequentar o Ensino Superior, que dantes funcionaria enquanto garantir de um futuro equilibrado e emprego satisfatório, não representa qualquer quase acrescento para os estudantes que se formam anualmente, nas instituições. Tirar uma licenciatura deixou de ser um free ticket para o mercado de trabalho, e os estudantes instruídos vêm-se muitas vezes obrigados a abandonar o seu país de origem, para procurar oportunidade lá fora – onde o panorama em muito se assemelha.

Por outro lado, Bauman reconhece também que são estes mesmos jovens que se encontram expostos ao sabor do consumismo, fazendo com que, muitas vezes, compreendam os recursos do consumismo como uma forma de inclusão social. A preocupação do Marketing e das vendas e o aumento do consumo por unidade de tempo, começando a primar-se pela utilização de vários bens ao mesmo tempo, estimulando diferentes partes dos órgãos do corpo e diferentes sentidos – nunca exigindo deles concentração plena e total. Comemos fastfood enquanto conduzimos, vemos televisão enquanto jogamos playstation – e julgamos que temos uma grande capacidade de multitasking. Esta ideia molda a lógica da humanidade, e sobretudo das gerações mais jovens, em como a vantagem é o descartável, o rápido, o simples, o fácil.

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Apesar de conter reflexões que nos mostram uma visão um tanto quanto deprimente e sem esperança para a sociedade – e, particularmente, para as camadas jovens da mesma -, o autor acaba a sua obra em tom de urgência na revitalização dos valores da mesma. Acima de tudo, “Isto não é um Diário” faz-nos querer mudar e lutar por uma sociedade justa, pela qual valha a pena lutar. Através dos seus sucintos comentários, Bauman consegue transportar-nos para uma dimensão reflexiva e ponderativa muito forte – talvez por preferir sempre não nos dar todas as respostas, e manter os seus textos em tom interrogativo.

Ao fim e ao cabo, a sua obra funciona exatamente como se quer que um Blog funcione: a par da sua opinião, Bauman convida-nos e refletir sobre as suas próprias palavras e a encontrar as nossas.

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Media Relations e a Reputação das Organizações | Pt. 2

Hoje, voltamos a conversar sobre a Reputação das Organizações. Esse elemento, que, como em quase tudo na disciplina das Relações Públicas, não traz consenso em muitas componentes que lhe são intrínsecas. Há algumas semanas atrás, iniciei uma reflexão acerca deste tema em relação às Media Relations, que complementei com questões que gostava de ver resolvidas. Mas, como seria de esperar naquilo que às Relações Públicas diz respeito, não encontrei resposta para todas – e, particularmente, não encontrei resposta para uma das minhas inquietações.

Mas vejamos – a verdade é que a Reputação e a Gestão de Reputação não são assuntos novos: as organizações e os indivíduos, organizados de forma formal ou informal, desde sempre que mostram preocupação com a forma como os outros, como os seus públicos, os percecionaram. Aquilo que mudou foi, por outro lado, a forma como as organizações começaram a dar importância a este assunto, dentro sua política e cultura organizacional. A Reputação começou a deixar de ser olhada como um elemento simples, e que apenas incluía a resolução de boatos ou de mal entendidos sobre as entidades: Doorley & Garcia (2007) mostram-nos a Reputação como o somatório das imagens da organização, que, por isto, implicam a Perfomance, o Comportamento e a Comunicação da Organização. Tendo esta mesma reputação um impacto tão elevado naquilo que sãos os benefícios tangíveis e intangíveis das entidades, não tem justificação não lhe dar o devido valor, nos dias que correm.

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Também não tem justificação não credibilizar os Media pela força que detêm na opinião pública hoje em dia: uma menção negativa acerca de determinado produto pode quebrar significativamente as vendas; uma apreciação positiva sobre determinada organização pode levar ao aumento de interesse face à mesma. Aquilo que vem noticiado já esteve na origem de motins, de celebrações e outras tantas formas de organização social. O que se produz é transmitido pelos Media e tem repercussões reais na sociedade – isto porque não se fecham em si mesmos; são tanto o meio como o público-alvo. E os profissionais de Relações Públicas têm conhecimento disto mesmo: para as organizações, os Meios de Comunicação Social representam a difusão mais acentuada da opinião pública, pela sua capacidade de divulgar, com um alcance abismal, livre informação sobre as marcas e empresas, quer seja em referência direta, quer seja de forma diluída em conteúdos.

Qualquer meio de comunicação, seja um jornal ou outro formato, funciona como um autêntico filtro de informações: constrói-se na capacidade de sintetizar o que acontece no mundo para uma determinada audiência (Assad & Passadori, 2009). Esta é uma realidade que as empresas e organizações não devem nunca negligenciar, e o mundo empresarial e organizacional está cada vez mais ciente deste panorama: a resistência em estabelecer um relacionamento saudável e duradouro com os Media tem-se vindo a quebrar, pelo facto de, finalmente, se ter compreendido o risco da publicação de versões distorcidas nos Media, ou de más críticas, que podiam ter sido evitadas se estivesse contemplada uma estratégia orientada para os Meios de Comunicação. Finalmente, começa a ser compreendido que lidar com o jornalista não é apenas tentar a promoção nos jornais, e que o investimento de recursos e pessoal nesta área não é um gasto supérfluo no orçamento organizacional, que se pode apenas fazer quando existem uns dinheiros a mais.

Estas questões materializam-se na disciplina a que podemos chamar Media Relations, que implica todas as formas de interação da organização com os Media (Doorley e Garcia, 2007). Inevitavelmente, esta área inclui também a habilidade de construir relações a longo prazo com os profissionais do meio – gerindo os seus contactos, procurando informá-los acerca da organização em questão, respondendo às suas dúvidas -, culminando, portanto, no desenvolvimento de procedimentos e métricas de monitorização e gestão dos Media.

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Esta construção de relações tem uma série de implicações bastante complexas, mas aquilo que se torna mais importante, segundo Doorley & Garcia (2007), é que a comunicação com os Media esteja centralizada – na medida em que é impensável que, dentro de uma organização, os seus membros digam coisas diferentes sobre o mesmo assunto, porque isto resulta em falhas de comunicação, potenciais conflitos, e, em último caso, problemas na reputação da organização. É crucial, por isto, reduzir o nº de pessoas que pode, dentro de uma organização, entrar em contacto com os Media para eventuais esclarecimentos de determinada situação. Por outro lado, é também importantíssimo que o contacto com os Media tenha em conta que estes profissionais não querem despender muito tempo a tentar compreender um determinado acontecimento, e que não irão falar sobre ele a não ser que este constitua uma história, apelativa e facilmente percebida. Não é do interesse das Relações Públicas – e, muito menos, do interesse da organização em si – que se repitam incidentes como o ocorrido na central Three Mile Island, aquando de um acidente nuclear a 28 de Março de 1979: os seus empregados não estavam completamente informados sobre o assunto, nem sabiam como agir numa situação do género, perante a azáfama de jornalistas. O incidente resultou na cedência de informação inconsistente quer sobre a causa do acidente, quer sobre o que estava a ser feito para o resolver – o que gerou confusão, mais pânico e a sensação de que ninguém sabia o que estava a fazer. A cobertura mediática do caso, que, por si só, já seria negativa devido à natureza da situação, só se agravou, devido às respostas obtidas.

Assim sendo, como pode o profissional de Relações Públicas representar uma fonte de informação relevante para os Media, ao mesmo tempo que garante que o conteúdo publicado vai ao encontro do que se procurava? Em casos mais urgentes, complexos e que exigem uma aparição pública que saiba dar resposta a questões eminentes, é comum recorrer-se a um porta-voz: um profissional escolhido previamente, que terá de estar informado sobre a situação sobre a qual irá responder e que, assim, dará a cara pela organização em questão. Um profissional com tal cargo não poderá, assim, dar-se ao luxo de não dispôr de qualidade que o classificam como tendo bons instintos e capacidades de comunicação, sendo capaz de lidar com eventuais críticas, sendo honesto e compreensivo e sabendo lidar com a pressão. Espera-se que, a partir deste porta-voz, haja um engagement perfeito com os Media, na medida em que este consiga tanto dar resposta aos jornalistas como representar benefício para a organização.

De facto, se recorrer a um porta-voz é comum, porque continuam a existir problemas entre as organizações e os Media? Muito do atrito que é formado entre as duas partes provém do medo que, muitas vezes, os profissionais encarregues de Media Relations sentem em relação aos jornalistas: “e se me citarem e eu não tiver dito o que queria, como queria?”; “e se me pressionam e eu dou informações que não quero?”; “e se me fazem perguntas a que não sei responder?”.   Todas estes receios são legítimos, e o ideal também não é que se subestime a força de um jornalista. No entanto, isso não é razão que justifique uma má prestação: a disciplina de Media Relations implica uma atividade de investigação bastante exaustiva, tanto da situação que vamos esclarecer como dos potenciais jornalistas com que vamos contactar. Não está sequer em hipótese que um indivíduo sem pleno conhecimento dê voz à organização. Assim, ter receio de ser citado pelos Media é igual a ser um vendedor e pedir que não comprem os seus produtos; só se deverá falar acerca do que se tem conhecimento de causa e, nesse sentido, ser citado só pode ser uma mais valia. Da mesma forma, ter receio de dar informações que não sejam as supostas não se aplica: é usual que o jornalista faça pressão para obter as respostas que pretende – por vezes até ameaçando com um “vou fazer a notícia na mesma, quer me responda quer não” -, mas este receio não se pode sobrepor nunca aos interesses da organização e, muitas vezes, não é possível dar todas as informações – por razões, muitas vezes, aliadas à segurança da organização e/ou da sociedade. Por fim, se chegar o momento em que não se sabe responder a determinada pergunta, o ideal é manter a honestidade: um “não sei” soa sempre melhor que uma mentira.

Ainda assim, mais importante que saber formar um porta-voz ideal, é importante que as Media Relations sejam olhadas sob a forma de relações contínuas e duradouras, de confiança mútua. Pensamos muito no jornalista como quem tem o poder na relação Relações Públicas-Media, mas isto não tem de ser regra: o sucesso das Media Relations depende de conseguir mostrar aos jornalistas as nossas capacidades de comunicação e persuasão, de nos mostrarmos convincentes e credíveis, de termos uma História de qualidade e que vale a pena ser notícia e – mais importante que tudo – estarmos preparados. A reputação da organização é acumulativa, pelo que, perante uma crise, não é organizar determinada conferência de imprensa ou comunicado que a resolve: o êxito está diretamente relacionado com a capacidade de prevenção que está intrínseca na construção de relações com os Media.

No entanto, continua a existir uma questão a que tenho dificuldade e relutância em responder:  e os Social Media? Se a imprensa escrita e online já era difícil de controlar e compreender, o que podemos dizer destes utilizadores das redes sociais, que acreditam ter em si o poder da palavra e da opinião e que, por isso mesmo, arrastam outros milhares para acreditar no mesmo? Mais recentemente, o Facebook foi acusado de permitir que campanhas anti-Trump fossem impulsionadas e, ao mesmo tempo, que as anti-Hillary fossem suprimidas. Como podemos medir as consequências na reputação das entidades e organizações, de plataformas tão pouco controláveis? Esse torna-se o verdadeiro desafio do nosso século, mas que apenas será possível quando se dominar, primeiramente, as Media Relations.

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Um novo Espaço Público

Daniel Innerarity é um filósofo basco, nascido em Bilbau no ano de 1959. Doutor em Filosofia, é Professor de História da Filosofia na Universidade de Zaragoza. Foi bolseiro da Fundação Humbodt e aprofundou a sua formação académica na Alemanha, Suiça e Itália. Atualmente, dá contribuições esporádicas nas páginas de opinião da imprensa espanhola – como no periódico El País – e, a par disto, é autor de vários livros publicados, de entre os quais destacamos A Humanidade Ameaçada, O Futuro e os Seus Inimigos, A Sociedade Invisível e – o livro que nos traz hoje aqui – O Novo Espaço Público.

Pedro Miguel Etxenike.

Dizemos tantas vezes que o mundo mudou, que os hábitos mudaram, que as pessoas mudaram, que o sentido do que dizemos acaba por se tornar um tanto quanto oco e irrelevante. Que a sociedade mudou é um facto, mas chega a hora de parar de dizer que mudaram e perceber porque é que mudaram e o que é que isso significa no mundo vivemos hoje. É isso que Innerarity se propõe a explicar-nos, através de uma reflexão crítica e detalhada sobre as sociedades contemporâneas.

O propósito da obra intitulada O Novo Espaço Público passa exatamente por examinar a ideia deste espaço e as suas transformações, que resultam da metamorfose sofrida pelas sociedades até aos dias de hoje. Mas, diz-nos o autor, para compreendermos a essência da sua reflexão, precisamos de pensar, primeiramente, no espaço público como algo que não constitui a realidade e é, ao invés, uma “construção laboriosa, frágil e  variável que exige um contínuo trabalho e representação e argumentação”, que enfrenta como seus principais adversários a imediatez de uma política estratégica e dos espaços globais abstratos. O autor apoia-se em Negt e Kluge (1972) para nos dizer que o espaço público deveria surgir enquanto espaço proveitoso para a experiência social, onde os membros de determinada sociedade produziriam uma realidade comum, mediante observações reflexivas – sendo mais que o debate entre o apelo ao universal e a celebração da diferença. Daniel diz-nos ainda que o espaço público deveria surgir enquanto lugar onde onde os problemas são assinalados e interpretados, de forma a que conflitos e tensões fossem convertidos em debates, de forma a representar a “problematização da vida social”.  No entanto, somos confrontados com uma necessidade de renovar este espaço, que provém da necessidade de proporcionar um conceito normativo e crítico que consiga enfrentar as “rotinas da política”. No quotidiano atual, já não encontramos o sentido de um mundo comum; a nossa força coletiva diminuiu e há um desencanto crescente pela política, o que permite que cresça a tendência para a contestação irresponsável, sem base no real funcionamento da sociedade.

Aquilo que observamos é, não só a transformação do espaço público, mas também a modificação do espaço privado, enquanto sua consequência. Encontramos uma “privatização do público”, na medida em que a esfera autenticamente privada desaparece porque a intimidade é impregnada pela política. Por isto mesmo, podemos observar hoje em dia situações como a personalização da figura política – as personagens políticas sobrepõem-se aos temas políticos, que, por sua vez, são tratados como questões pessoais -, a politização do privado e a deslocação da política – observamos a esquerda, que prefere o público e o universal, muito bem diferenciada da direita, que dá primazia ao valor do privado. O que é facto é que um espaço público bem articulado, segundo o autor, deve permitir questões sociais que são postas no âmbito da deliberação pública, e outras que são protegidas do escrutínio não-privado e a política deve existir no espaço aberto que exista entre estas duas dicotomias.

Pelas modificações que compreendem o âmbito e consideração do espaço público, muitas outras componentes se modificaram, bem como a perceção que as sociedades contemporâneas detêm sobre elas. A própria noção de representação política, da qual depende a capacidade para articular o espaço público, também sofreu repercussões. Esta noção advém da necessidade de – como o nome sugere – representar, e representar o povo, que surge como uma realidade nebulosa e, portanto, precisa que lhe sejam definido contornos. Mais recentemente, vemos movimentos associados ao populismo – que visam fazer do povo algo evidente e disponível, estando muitas das vezes na origem de incentivos anti-sistema. O chamado populista não é recente, mas com a era da Comunicação, tem-se retornado uma tendência contraproducente com aquilo que está definido para a política: as decisões tomadas no âmbito da democracia precisam de tempo e mediações; ao passo que o populismo não consegue compreender a política como inserida numa temporalidade onde nada é imediatamente realizável e onde as exigências não podem ser feitas simultânea ou imediatamente.

Por outro lado, vemos agora que as pessoas se agrupam por interesses particulares e imediatos, concretos e específicos, e não por ideologias. O espaço público torna-se um agregado de interesses – transformando as questões políticas em imparcialidades jurídicas. Innerarity mostra-nos que esta situação vai igualmente contra o ideal de Democracia que estava previamente em vigor, que não olhava para o espaço público como um conjunto de preferências pessoais, mas sim um local de deliberação e argumentação acerca de assuntos que não são abordados como razões absolutas.

O problema do populismo e da agregação por interesses particulares é que a sua sugestão de funcionamento democrático se encaixa naquilo que se compreende como Democracia Direta, que anula então o momento deliberativo democrático e se reduz à imediatez dos gostos e desejos. E esta é uma realidade que nem é possível, em termos práticos, como também não se torna exequível em termos teóricos, uma vez que implicaria que a sociedade se tornasse uma mera justaposição de decisores autónomos.

Precisamos, inevitavelmente, de considerar também no assunto o peso dos meios de comunicação social: os Media e, principalmente, os novos Media reduzem a complexidade do mundo, na medida em que reduzem os acontecimentos às vítimas e aos culpados – os acontecimentos são condensados até que possam materializar-se numa pessoa, num acontecimento, numa causa. São os meios de comunicação social que gerem o medo e a insegurança da sociedade, segundo uma dinâmica que nos coloca a viver num mundo em 2ª mão: os Media dão-nos conhecimento das experiências e construímos o nosso mundo com base nisso – em observações que nos são transmitidas. Na atualidade, acabam, então, por ser os meios de comunicação social a decidir os temas que são debatidos em espaço público, por meio da influência da agenda.

É preciso considerar ainda que tendemos a associar o espaço público à ideia que temos de cidade, na medida em que consideramos que aquilo que compreende o âmbito público é o que está “sujeito ao olhar da comunidade”. No entanto, o autor convida-nos a considerar que é na cidade que nos permitimos a conviver entre os estranhos, onde a individualização se permite e a heterogeneidade não é suprimida. Permite a existência de cultura como algo que define a atuação em conjunto da sociedade sem, por isto, exigir que todos os seus membros sejam idênticos. Ainda assim, nos dias que correm, esta dinâmica parece estar sujeita à eminência da periurbanização: a cidades estão a estender-se para as suas periferias, descentralizando a vida urbana e fazendo com que, gradualmente, se percam do seu centro os vínculos que outrora se tinham criado. Esta dissolução do espaço citadino acaba por provocar uma segregação social e funcional, que torna o espaço público na cidade fragmentado na medida em que temos várias disposições espaciais – moramos num sítio, trabalhamos noutro, vamos às compras noutro.

Este panorama remete-nos para a segunda parte da obra: e nós? Quais as consequências destas modificações? O autor apresenta-nos a sociedade contemporânea como devedora da sua modernidade ao facto de qualquer operação relativa à unidade decorrer em competição com outras; a imagem dos indivíduos entre si torna-se igual, uma vez que a multiplicidade de formas de observação na sociedade moderna implica que nenhuma se possa afirmar como mais válida do que a outra. Encontramos um mundo novo, marcado pela heterogeneidade e onde é, por isso, preciso proteger diferenças culturais maiores. No entanto, deixa o repto: vivemos num mundo de diferenças entrelaçadas, onde, por isso, a existência de diferença não deve significar negar a parecença.

O autor reforça, então, a urgência de uma política que saiba lidar com todas estas novas dinâmicas: de uma política que não veja automaticamente benefício no homogéneo, no consenso, no que é de fácil acordo. Numa sociedade onde interagimos cada vez mais com o estranho, criamos a rotina da estranheza e construímos um tecido de relações entre os diversos grupos sociais e, daí, criando múltiplas identidades que nos permitem adaptar às situações. No entanto, vivemos numa época em que o poder político se vê em apuros para se conseguir afirmar: a política é fraca perante a competição dos fluxos financeiros e dos poderes da comunicação social e o seu espaço próprio perde-se nos formatos da globalização e dos processos de individualização das sociedades. Observamos uma época em que o próprio Estado se encontra em dificuldades sempre que precisa de regular, mobilizar, organizar, concretizar ou assegurar algo. Então, qual é a solução?

Somos apresentados à ideia de Estado Cooperativo: nas sociedades atuais, não é possível cumprir as tarefas públicas por decisão unilateral das instituições estatais. Torna-se essencial que, tal como as Cidades, o exercício Político se descentralize e que seja entendido como uma organização de interdependências, gerindo as suas relações de poder e estabelecendo determinadas prioridades. É necessária uma nova forma de governação, que saiba responder à fragmentação do espaço social e que permita que o interesse público tenha primazia sobre o sujeito. O autor explica-nos que o atual Estado está sobrecarregado e envelhecido por ter sempre tentado garantir o bem comum, carecendo igualmente de recursos. É por isto, esperado que a política procure uma forma alternativa de configurar o espaço social, colaborando com o Estado. Perante esta situação, evoca-se a pertinência do soft power, em detrimento do hard power, que deve ser o elemento para coesão e união entre países e nações.

De facto, penso que a reflexão do autor deve ser realizada por todos nós, enquanto elementos da sociedade e cidadãos comuns, e não apenas por grandes escritores e pensadores. A relevância da política no mundo atual é muito preocupante: assistimos, principalmente nas camadas mais jovens, a um desinteresse abismal que se traduz em taxas de abstenção que fazem dos nossos avôs e avós a revolta personificada. A influência dos novos meios de comunicação, da tecnologia e redes sociais construiu uma esfera pessoal que reduz os interesses aos do indivíduo, e só depois ao que o rodeia. Desta forma, a política não representa uma adição apelativa ao jovem, que não vê nela consequência direta nem impacto relevante naquilo que são os seus desejos e preces; vemos um jovem que não conhece a frente política, que não sabe as suas decisões, que não vota ou que vota sem saber em quem está a votar. Por isto, vejo sentido na viragem da política que o autor sugere – que faça frente a este novo panorama -, mas também apoio o investimento na pedagogia que, de alguma forma, faça compreender às gerações a importância do poder político, do saber político. Vivemos um tempo em que a figura política representa apenas quem tem poder, e as suas responsabilidades não são lembradas, nem compreendidas.

“Not my President”

Donald Trump é eleito Presidente dos Estados Unidos da América – ou devo dizer dos Estados Loucos da América? A notícia caiu com um tom tão amargo, tão azedo e tão injusto que pensei que só poderia ser mentira. Sempre foi uma hipótese, claro, e na semana que antecedeu as eleições tornou-se uma hipótese cada vez mais assombrosa, com as novas sondagens a ameaçar a queda de Hillary Clinton. Mas é diferente, é sempre diferente e custa sempre mais quando se acorda de manhã e se percebe que o mundo mudou – e que mudou para pior. 

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Ligo a televisão. As pessoas choram, protestam, escrevem “Not my president” em grandes cartazes e no seu corpo. Mas ele ganhou. Ganhou, América. É o novo Presidente, o vosso novo Presidente e – com muita amargura digo – o nosso Presidente. Isto porque aquilo que diz respeito aos EUA nunca diz unicamente respeito aos EUA; esta é uma escolha que não torna só a população americana infeliz, mas que coloca a população mundial na mesma corda bamba, no mesmo limbo.

Quando comecei a ler Um Mundo sem Regras, de Amin Maalouf, nunca poderia eu adivinhar que fizesse tanto sentido nos dias de hoje. Mas, infelizmente, esta obra é tudo aquilo que estamos a viver e é uma última wake up call. O próprio Maalouf nos explica que escolher um Presidente Americano nunca é escolher apenas um Presidente Americano: os Estados Unidos da América assumiram um papel planetário de tal tom que ditam tudo, ou quase tudo, o que acontece na restante dinâmica global. Em tom irónico, Maalouf sugere até que esta decisão não deveria recair apenas sobre o povo americano, uma vez que o resultado tem um impacto brutal até na mais pequenina nação, no mais pequenino território. Relembra-nos que as decisões de Bush ditaram mais problemas do que aqueles que  se cingiam diretamente aos americanos e aos seus princípios e à sua integridade; as suas escolhas tiveram, irremediavelmente, consequências mundiais.

E isto não é bom. Se fomos abençoados com um Obama, que gerou uma torrente absolutamente justificada de admiração por si, “(…) pelos Estados Unidos, pelo seu povo, pelo seu sistema político e pela sua capacidade para gerir a sua diversidade écnica (…)”, hoje levamos as mãos à cabeça e pensamos “Porquê?” quando as manchete nos mostram Trump e as suas declarações pouco ou nada ortodoxas – para ser simpática. Esta mixed blessing, como chama o autor, que recai sobre os Estados Unidos, reflete-se na vantagem de poder transmitir valores universais e de agir enquanto exemplo mundial, mas facilmente se torna uma maldição quando sabemos que qualquer tipo de poder tem de ter contrapoder; qualquer entidade precisa de saber os seus limites para proteger os outros e para se proteger de si mesma. O facto de a América representar este papel implica que tenha, em nome do seu equilíbrio e do equilíbrio do mundo, de se relacionar com os outros – sem exceção. Maalouf fala-nos de estarmos a viver numa época Pré-Histórica demasiado longa, num mundo globalizado nascido dos escombros da Guerra Fria, que precisa de uma turbulência tal que nos permita sair desta condição. Que nos permita coexistir, de forma harmoniosa e pacífica, com todas as populações – diferentes pela religião, pela cor, pela língua, pela história, pelas tradições.

Então, como se explica que tenha sido eleito Donald Trump? Donald Trump, que é a rutura de relações em pessoa, que é a discriminação em oratória e o ódio em ações. Maalouf fala-nos de uma crise moral do nosso tempo, em que perdemos as nossas referências e os nossos sentidos, com uma urgência muito grande naquilo que é a adoção de uma escala de valores baseada no primado da cultura, na salvação da cultura. A cultura é a forma de obter conhecimento e  conhecimento permite que o planeta não se esgote; a cultura é uma disciplina de sobrevivência. O autor é muito claro: para garantir a paz civil, temos de conhecer os outros e a sua cultura, as suas paixões, os seus interesses, as suas aflições. Não seremos cidadãos responsáveis se nos deixarmos manipular pelos propagandistas, pelos governantes e a única forma de garantir isso é conhecendo.

O grande erro em eleger Trump relaciona-se com a sua legitimidade: o que permite aos povos e indivíduos aceitarem sem demasiado constrangimento a autoridade e os valores que partilha é a legitimidade, e é uma legitimidade que deve ser genealógica e que não deve só assentar em guerrilhar contra os nossos inimigos.  E o que promete Trump? Cospe, num discurso raivoso e insensível, a forma como vai expulsar e discriminar todos aqueles que, a seu ver, são inimigos. É esta a sua oferenda: um incentivo desmedido ao ódio.

Mas este não é o único erro: sabemos o quanto Trump abomina as minorias e as excomunga, culpabilizando-as de tudo o que acontece de cruel na América. Além da acusação sem provas e generalizada, vai contra aquilo que Maalouf nos explica: as minorias são cruciais para a civilização, na medida em que não existirem se torna preocupante porque nos coloca numa espécie de “purificação ética”, que não nos permite avançar, uma vez que nos reduz aos mesmos valores e crenças mundialmente. Numa era onde vivemos a “aldeia global”, o autor reforça que uma atitude não aceitadora compromete a coexistência, que, quer queiramos quer não, existe e irá acentuar-se ainda mais.

E os imigrantes? Esses monstros que Trump tanto critica, e que vêm ameaçar a integridade dos cidadãos americanos, e que são a razão do terrorismo? Segundo Maalouf, a imigração torna-se crucial para as sociedades e o Ocidente precisa de investir na relação que estabelece com estes indivíduos, para que estes sejam o melhor intermediário das suas relações com o resto do mundo. Evocar monstros do passado em relação ao imigrado, da forma que Trump tanto gosta de fazer, aumenta um clima de desconfiança numa época onde a atitude correta seria integrar e ajudar. O migrante pertence a duas sociedades e não tem o mesmo estatuto nas mesmas e não pode continuar a ser visto como fundo da escala social. A abordagem face à imigração precisa de uma viragem radical, que não obrigue o migrado a escolher se pretende continuar a identificar-se unicamente com o seu país de origem ou se prefere camuflar-se no seu país de acolhimento: no século em que vivemos, obrigar um indivíduo a esquecer o seu passado e a abdicar de valores e cultura própria é uma afronta. E é isto que Trump pretende colocar em prática.

Maalouf oferece-nos duas possíveis visões do mundo e do seu futuro: uma Humanidade partilhada por tribos planetárias, que se odeiam, mas que precisam de aprender, forçosamente, a lidar umas com as outras, devido à força da Globalização; ou uma Humanidade consciente do seu destino comum, reunida em torno dos mesmos valores mas continuando a desenvolver expressões culturais diversas e expansivas. Mas Trump não prefere nenhuma destas opções: a sua opção é aniquilar todas as outras nações, única e exclusivamente em prol daquela que considera a única nação digna – a América. Esta visão quase homicida só vem agravar um panorama Ocidental que, por si só, já se encontrava desorientado.

Não me parece que a Humanidade tenha noção do que estamos a viver. Nunca, já dizia Maalouf em 2009 quando lançou esta obra, “houve tanta necessidade de solidariedade efetiva e de ações conjugadas para fazer face aos numerosos perigos que nos assediam; perigos gigantes nascidos dos avanços da ciência, da tecnologia, da demografia e da economia, que ameaçam aniquilar (…) tudo o que foi construído durante milénios.” É com Trump que nos propomos a percorrer este caminho? Mas como, se este só pretende construir muros, onde se deveriam construir pontes?

Maalouf acreditava que a chave para o progesso do mundo, para a saída desta época Pré-Histórica que temos vindo a construir ao longo dos conflitos, escândalos, crises e perigos mundiais, tinha em si três esperanças: a primeira seria o progresso científico, que continua a aumentar a passos largos; a segunda era a viragem que as nações mais populosas do planeta estão a fazer, no seu percurso para sair do subdesenvolvimento; a terceira vinha pela mão da Europa contemporânea, que esqueceria os traumas do passado e se reuniria formando uma frente fortíssima; a quarta como a ascensão de Barack Obama. 

Mais do que nunca, o mundo tem a necessidade de uma América, e de uma América reconciliada consigo própria e que possa exercer o seu papel planetário no respeito pelos outros e dos seus valores. Mas, e Maalouf reforça, o progresso da Humanidade não pode estar associado apenas a um fator e dirigente, por “mais lúcido e persuasivo que ele seja, nem a uma única nação por mais poderosa que seja, nem sequer a um único continente”.

Daqui surge o meu apelo, que se torna o apelo – creio com certeza – de mais umas milhares de pessoas: é hora. É hora de não permitir mais este panorama e reeguer e reinventar a perceção e dinâmica do mundo. Confiar a saída da Pré-História apenas à América talvez nunca tenha feito sentido; agora não o faz de certeza. Ou sabemos utilizar em nossa vantagem todas as oportunidades que emergem ou ficaremos mergulhados em seres pitorescos para sempre – sabe-se lá com que mais consequências. É hora de gritar: Not my president!

Um Ideal Esquecido

Temos tanta facilidade em pensar de ânimo leve na razão e no significado das coisas. Estamos fortemente habituados a acreditar naquilo que nos dizem que devemos de acreditar, ao invés de percebermos se, de facto, temos mesmo de acreditar ou não: gostamos das coisas porque nos dizem que devemos gostar e que as coisas são boas, e não pela nossa própria experiência individual.

Numa primeira fase, poderíamos atribuir esta situação a uma quantidade infindável de razões mais válida ou menos válidas, mas que acabariam por desvalorizar a sua gravidade. No entanto, é para esta mesma problemática que Riemen decide alertar-nos, materializando as suas reflexões naquilo que se torna um grito de socorro muito alto. O que se passa, então, com a sociedade?

Em “Nobreza de Espírito – Um Ideal Esquecido”, o autor Rob Riemen apresenta-nos um conceito a partir do qual constrói toda a sua obra: a Nobreza de Espírito. E enquanto que cada um de nós pode interpretar o significado de nobreza do modo com o qual mais se identifique, é a interpretação de Riemen que assume a principal importância naquilo que são as bases da civilização e da sua formação e torna-se por isso mesmo uma reflexão tão pertinente e tão urgente.

Esta obra surge no âmbito de um encontro onde o autor pôde participar, com a sua amiga de longa data, Elisabeth Mann Borgoese – filha de Thomas Mann – e um convidado inesperado, Joseph Goodman. Aquilo que acaba por se tornar numa discussão fervente entre os três vem a revelar-se na vontade de Joseph em escrever uma obra que esclareça acerca daquilo que é a verdadeira nobreza de espírito.  Apesar de, anos mais tarde, ter morrido sem poder satisfazer a sua vontade, as palavras de Joe incentivaram Riemen no sentido de este continuar o legado da definição de um conceito que, subitamente, se tornara tão significante.

A verdade é que, depois da leitura da segunda e terceira parte da obra de Riemen, onde, através de fusão de histórias, episódios e conversas que juntam nomes como Goethes, Espinosa, Sócrates, Platão e outros, não podemos dizer que encontramos uma definição única de nobreza de espírito. Por outro lado, percebemos igualmente que isto não acontece porque estamos a falar de um conceito que nunca poderá estar totalmente fechado, cabendo, por isso, a cada um de nós, refletir acerca daquilo que são as bases transmitidas pelo autor.

Aquilo que podemos tomar como certo, no entanto, é a dificuldade de encontrar alguém nobre hoje em dia: a democratização das políticas atuais, o nivelamento igualitário da educação e a dominância dos meios de comunicação social prejudicam totalmente o sucesso do pensamento nobre. Esta nobreza de espírito, vinda “das ciências, da beleza e da forma”, preza por ser o grande ideal e a realização da verdadeira liberdade, que possibilita  crescimento interior e a educação liberal – que, por sua vez, conduzem ao respeito, tanto pelos outros como por nós próprios. Aquilo que hoje em dia se passa vai completamente de encontro ao que é, então, pretendido pelos ideais da nobreza de espírito, comprometendo não só a nossa liberdade, como também a nossa verdade.

No início de tudo, na criação da civilização, os humanos juntaram-se para viver em harmonia em prol da prosperidade e da segurança, rearranjando-se em grupos sociais que, na sua essência, descuidavam da violência para introduzir mudanças políticas. Num clima justo, os poderes separaram-se e as liberdades garantiram-se por meio de uma constituição e por instituições cuja finalidade se focava, assim, em salvaguardar as liberdades. Através da civilização, o Homem alcançava a sua dignidade por meio da manutenção dos seus valores – dos valores da Humanidade e da civilização -, criando a sua cultura. Esta cultura, este pedaço da civilização que tão fortemente a constrói e mantém, assenta no conhecimento dos valores e ideais dos Homens, incluindo obras intemporais, transmitidas de geração em geração, que lhes permitiam obter a dignidade por meio da valorização de espiritualidades que determinavam a vivência em pares. Segundo Sócrates, seria função dos verdadeiros intelectuais – que assume que deveriam governar as sociedades – manter todos estes valores culturais e espirituais, que permitiriam à civilização o conhecimento verdadeiro e a distinção digna acerca do que é bom e mau, do correto do errado.

Mas hoje em dia não é isso que acontece: os intelectuais traem a sua civilização, subordinando as suas distinções entre o bem e o mal às suas convicções políticas; a intemporalidade dos valores perdeu-se numa dinâmica de vida onde a utilidade se torna o objeto mais importante, que permite ganhar dinheiro de forma simples, organizada e de fácil compreensão; cada um faz o que pretende, com a sua liberdade individual, criando a sua própria divindade e organizando a sua vida da forma que crê ser melhor; a realidade encontra-se politizada em moldes que não permitem nem querem ambiguidades. Onde está, então, a nobreza de espírito?

Este Niilismo ataca a civilização, na medida em que rouba à existência humana a possibilidade de se elevar acima da natureza animal: a eternidade e o espírito que permitiam a nobreza das pessoas já não existe e, por isso, leva consigo a imagem de valores universais e intemporais. A liberdade deixou de ser um espaço para a dignidade humana e tornou-se aquilo que é a favor da idolatria do que é rápido, do que é fácil, do que é descartável, do que traz retorno instantâneo e, a par e passo, as heranças culturais que nos caracterizavam – como a música e a arte – começam a desaparecer.

O autor explica-nos as causas a traição à nobreza de espírito: em primeiro lugar, o poder como vontade ser influente, ser ouvido e admirado – o que faz com que os indivíduos abandonem os valores espirituais em prol de terem controlo -; em segundo lugar, a má fé em relação aos valores da nobreza de espírito, por meio da influência do paradigma científico que exclui termos subjetivos e ambíguos; em terceiro lugar, pela falha dos intelectuais, na medida em que estes se tornaram corruptos ou demasiado excêntricos para governar.

Naquilo que é o mundo de hoje, parece-me que nos falta adicionar uma outra causa para a traição à nobreza de espírito: as novas formas de comunicação. Num primeiro ponto de vista, a comunicação deveria servir de plataforma à nobreza de espírito, por funcionar enquanto espaço livre para a criação de pensamento, para a reflexão, para a transmissão de valores espirituais e culturais. A comunicação, pelas suas propriedades inatas, estabeleceria uma ponte entre os indivíduos – ponte essa que consolidaria a constituição da civilização e a manutenção dos ideais que representariam os seus alicerces. No entanto, isso não acontece, apesar de a comunicação assumir,nos dias que correm, uma componente cada vez mais crucial para a vivência humana. Então, como explicamos isto?

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O mundo capitalista que Riemen critica pela sua forma descartável e exclusivamente comerciável de lidar com a realidade foi, em grande parte, impulsionado pela comunicação e pelas novas formas de comunicação: a internet, as redes móveis e, principalmente, os social media, têm um papel muito significativo naquilo que significa a aceleração dos tempos e a intemporalidade das coisas – que, ao longo da obra, são amplamente criticados numa dimensão que impossibilita a criação de nobreza de espírito. A partir destes meios de comunicação, as pessoas destruíram barreiras temporais e espaciais, é certo, mas, ao mesmo tempo, gerou-se uma idolatria significativa à instantaneidade e à rapidez de progresso, em todos os campos da sociedade.

Aquilo que pretendemos e procuramos chega-nos à distância de um clique; a opinião do indivíduo mais discreto passa a valer quase tanto como a de um intelectual credibilizado por meio de quantas partilhas a sua publicação obtém nas redes sociais. Não temos tempo para pensar, para refletir, para admirar aquilo que nos rodeia, porque a Comunicação como a vemos hoje em dia asfixia-nos de informação de que devemos gostar ou não gostar, conforme seja a tendência.

O que importa reter é que precisamos urgentemente de uma viragem, de forma a não comprometer a nossa cultura e os valores que nos tornam uma civilização. E, assim sendo, devemos deixar de ver na Comunicação mais uma barreira à nobreza de espírito e começar a fazer com que ela se torne, de novo, uma forma de perpetuar aquilo que nos define enquanto Humanidade. E, nesse sentido, comunicar e estabelecer relações com base na comunicação assumem um papel importantíssimo.

É tempo, então, de voltar a reerguer os intelectuais – os verdadeiros intelectuais – do nosso tempo e dar-lhes uma voz mais alta que os outros. E a Comunicação só pode ajudar-nos nesse sentido.

A verdadeira responsabilidade social

Atualmente, vivemos numa era onde a área da Corporate Social Responsability se assume como uma trend que as empresas e organizações não podem ignorar. De facto, começamos a ficar de tal forma tão habituados a este termo que julgamos que o conhecemos perfeitamente e reduzimos, muitas vezes, a sua existência a umas meras ações de solidariedade encabeçadas pelas organizações e os seus CEOs, sob a forma de donativos reconchudos e iniciativas que procuram ajudar um “Zé Ninguém” aqui ou ali.

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Aquilo que Philippe de Woot se propõe a mostrar-nos, através da sua obra Rethinking the Enterprise, é exatamente levantar o véu daquilo que hoje encaramos como responsabilidade social das organizações e explicar-nos o seu verdadeiro significado, que qualquer empresa deve cumprir. Assim sendo, a primeira ideia com que nos confronta é o facto de as empresas servirem de ligação entre a ciência e a sociedade – pelo poder que lhes é intrínseco e que lhes permite transformar conhecimento científico e tecnológico em produtos e serviços. Neste sentido, deveríamos olhar para as empresas como a chave para o progresso da Humanidade. Mas é isto que acontece realmente?

A verdade é que, até há algum tempo atrás, poderíamos responder seguramente que Sim a esta pergunta. No entanto, a resposta à dúvida que o livro nos coloca toma proporções algo dúbias nos dias que correm: através da globalização e aceleração das dinâmicas do mundo económico, o mercado ganhou certa autonomia e começou a fazer dos seus objetivos próprios a prioridade, descuidando da sua evolvente. A partir daqui, apesar de o lucro obtido pelas empresas ter registado e continuar a registar valores altíssimos, encaramos problemas como a poluição, exclusão social, dominância e tantas outras injustiças que nos permitem concluir que a componente lucrativa das empresas não é respeitadora da sociedade.

Assim sendo, porque mantemos este sistema? As empresas estão no centro do sistema económico, pelo que podem e devem mudar esta estrutura de funcionamento, de forma a responder às necessidade e mudanças sociais que vemos crescer em função da atuação irresponsável das organizações.

Neste momento, viemos num modelo económico marcado pela competitividade, mas esta competição está a revelar-se exclusivamente benéfica para as empresas e pouco ou nada para o consumidor: a estrutura competitiva deve ser importante para que as empresas ganhem lucro, ao mesmo tempo que permitem ao consumidor constante ajusto de preço e qualidade – permitindo assim desenvolvimento económico, tendo simultaneamente em mente o desenvolvimento cultural. Para garantir o alcance destas finalidades, só o poderemos fazer recorrendo à inovação e, deste termo, surge um outro ainda mais importante: o empreendedor. E quando falamos de empreendedor não estamos a referir-nos à individualidade, àquele único indivíduo que tem sempre uma ideia ou outra out of the box; estamos a referir-nos à organização, que deve, na sua plenitude, gozar das características que fazem parte de uma mente empreendedora – a visão de progresso, o gosto pelo risco e a convicção suficiente para alcançar os recursos necessários.

Este modo ideal de trabalho está a ser difícil de pôr em prática pela existência de um vácuo político e ético na dimensão empresarial de hoje em dia. Na política, vemos a globalização a crescer a um ritmo muito superior à regulamentação legal – construindo uma fraqueza política no que toca a lidar com as crises do século XXI, como as mudanças climáticas e destruição de biodiversidade. As empresas agem como se a globalização lhes tivesse sido imposta, e não tivesse dado tempo suficiente para que estas escolhessem o mercado onde querem estar. Por outro lado, assistimos à ausência da componente ética, que se traduz numa operacionalização das empresas que procura apenas os resultados, sem dar importância os meios que os possibilitam. É neste sentido que precisamos de empresas empreendedoras – implica que esta encontrem uma forma de desenvolver uma cultura responsável, que traga benefício a todas as partes.

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Este propósito só se torna possível se pararmos de olhar para a intenção da empresa e começarmos a refletir acerca do seu significado. E, segundo o autor nos diz, o significado de empresa tem no seu núcleo a operacionalização de recursos, sim, mas conjugada com a ética e bem comum dos que rodeiam o meio empresarial. E não é isto que vemos atualmente: estas entidades preocupam-se maioritariamente em trazer lucro aos seus shareholders, atribuindo muito pouco valor à dimensão da responsabilidade social e só o fazendo quando isto significa algum tipo de retorno financeiro. Esta é uma situação completamente evitável, pela significância e poder que as empresas assumem na ciência e na tecnologia.

É tempo de voltar, então, a dar significado ao trabalho das empresas. Isto não implica, no entanto, que se tenha de demolir o sistema atual – mas sim restaurar a dimensão que lhe conferia importância social. É tempo de construir uma cultura empreendedora responsável dentro das empresas, que envolva o compromisso não só de agir mas também de assumir as consequências das ações. Isto implica conciliar a criatividade e inovação empresarial naquilo que são as necessidades de quem nos rodeia, permitindo o sucesso lucrativo e social, simultaneamente.

Tudo isto permite-nos concluir que precisamos de redefinir a dimensão ética e cívica das organizações. Para isto, é crucial voltar à cidadania e à política, onde as empresas têm de se questionar sobre que mundo querem construir, com os recursos e capacidades que são disponibilizados. Esta pergunta envolve, obviamente, muito mais do que o interesse dos shareholders e o crescimento económico – implica o bem comum. Neste sentido, nascem ideias como a de Desenvolvimento Sustentável, que querem retribuir a ação económica ao contexto do bem comum para o mundo e, envolvendo o encontro com as necessidades do presente sem comprometer a capacidade de as gerações futuras satisfazerem as suas necessidades e interesses. Isto torna-se impossível se não for mantido um papel ativo naquilo que são os debates para o bem comum e orientações para o futuro.

Um bom exemplo para aquilo que vai ao encontro do que o autor defende durante a sua obra é o funcionamento da empresa EDP – Portugal, S.A. A empresa, líder no setor da energia em Portugal, marca a sua ação pela inovação, criação de valor e sustentabilidade – desenvolvendo formatos de negócio que ajudam as comunidades e visam o progresso. Prova disso mesmo são os inúmeros prémios que, durante o ano de 2015, a empresa pôde receber, no âmbito da responsabilidade social. Além de desenvolver formas sustentáveis de distribuição de energia, a EDP preza pela sua relação com os colaboradores e com as cidades onde opera os seus serviços.

A verdade é que, para as Relações Públicas, ouvir e falar sobre CSR é algo que se tornou bastante comum. Dentro disso, torna-se absolutamente pertinente ler esta obra e refletir sobre aquilo que é o papel de um profissional de RP sobre a responsabilidade social da organização que defende, e só podemos concluir que este assume um papel absolutamente crucial na devolução da dimensão ética e política às empresas. Estabelecendo uma ponte entre as organizações e os seus públicos – e não apenas entre os seus shareholders -, então torna-se óbvio que é urgente que  os profissionais da área saibam atender às necessidades do ambiente envolvente, estando informados sobre aquilo que são os requisitos dos públicos presentes, garantindo também a sustentabilidade dos futuros. E isto passa por saber enquadrar toda a atividade da empresa naquilo que é o interesse público, e não apenas organizar uma pontualidade que faça manchete de Jornal e que ninguém torne a recordar daqui a uns meses; implica uma dinâmica que abarque todo o funcionamento da organização. E este é o verdadeiro desafio para as RelaçõesPúblicas: preparar as organizações para serem parte ativa da sociedade e lhe trazerem benefício.

A Ideia de Europa

Por acaso, nasci na Europa. Também por acaso, continuei a morar no mesmo Continente. E sempre tomei isto por garantido, natural, inato. Mas o que há então, de tão natural e inato em ser, crescer e – acima de tudo – pensar europeu?

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Acima de tudo, é exatamente esta a dúvida que George Steiner nos coloca no desenvolvimento da sua obra escrita A Ideia de Europa, num ensaio onde tenta decifrar e explicar o que sente que significa o conceito de ser europeu e define aquela que é a identidade dita europeia. O livro, editado em Lisboa pelo ano de 2005, é uma recuperação de uma palestra que o autor proferiu no Nexus Institute de Amsterdão, durante a presidência holandesa da União Europeia e vésperas da Cimeira Intelectual, em 2004. Nesta décima Palestra Nexus, o tema incidia essencialmente sobre se a Europa continuava a significar uma associação e união significativa e benéfica para todas as partes, e se a sua relevância política continuava convicta e George Steiner foi convidado a partilhar a sua opinião.

Steiner não era, de facto, uma figura discreta para  o Nexus, uma vez que tinha sido a grande personalidade inspiradora da criação da revista Nexus, em 1991 – antes de se dar qualquer palestra. Em 1969, o autor tinha já ficado na mente dos fundadores da revista quando, numa conferência em Amsterdão, referiu que “A Europa suicidou-se, ao matar os seus judeus”, assumindo uma posição que olhava para a Europa como uma triste personagem, que tinha já perdido totalmente a sua cultura, identidade e expressão – significando agora simplesmente uma entidade geográfica e económica.

Como nos explica Durão Barroso, no prefácio da obra, Steiner procura explicar a ideia de Europa “a partir da escala humana, da sua geografia, de filósofos, artistas e professores, sempre em movimento, construindo passo a passo a nossa cultura comum”. A ideia que Steiner pretende explorar é a dúvida que recai sobre as atrocidades, ceticismo e descrença de que a Europa tem sido alvo e a influência desses mesmos fatores na força que outora detinha. Em outros tempos, via-se em ser europeu uma força e nobreza de espírito atroz; neste momento, a pujança dos outros continentes faz-nos tropeçar nos nossos próprios pés.

Assim sendo, Steiner apresenta-nos cinco axiomas para definir a “Ideia de Europa”. O primeiro axioma centra-se na importância dos cafés nas grandes cidades da Europa e que estão, de uma forma ou de outra, quase todos relacionados a grandes personalidades da História e cultura do país – como poetas, políticos, filósofos, artistas, que tinham por hábito frequentar estes mesmos cafés e produzir aí mesmo parte das suas obras.  Steiner descreve o café europeu como “um local de entrevistas e conspirações, de debates intelectuais e mexericos, para o flaneur e o poeta ou metafísico debruçado sobre o bloco de apontamentos”, pondo ainda em evidência que um pub inglês difere obrigatoriamente de um bar irlândes – na medida em que cada uma destas instalações possui uma aura, história e mitologia próprias do país e cidade onde se encontra. Escusado será dizer que um bar americano em nada se assemelha à riqueza cultural e de espírito que se encontra num bar europeu.

A segunda ideia que nos é apresentada é que “a Europa foi e é percorrida a pé”, ao contrário dos outros continentes, onde as distâncias entre cidades e países se tornam de tal forma significativas que afasta as comunidades umas das outras – mantendo o contraponto até mesmo para a situação dos tempos de hoje em dia, quando sabemos que na América se dá primazia às deslocações por carro ou avião. Esta ideia é fundamental para compreender a importância e o valor dos viajantes, peregrinos e pedestres na cultura e formação da Europa. A história da Europa é feita de marchas dos soldados mas também dos cidadãos, que percorreram a pé o solo das suas cidades em prol das suas lutas e reivindicações.

De certa forma, este segundo ponto relaciona-se com o terceiro axioma que Steiner nos traz, relacionado com o hábito muito europeu de atribuir um valor desmedido ao passado histórico dos seus países e culturas – valor este que pode tornar-se demasiado pesaroso. Esta relembrança também se traça, por outro lado, pelos nomes atribuídos às ruas, praças e locais – que são batizadas com nomes de ilustres personalidades do passado. Em cada canto, podemos ver uma memória eternizada de um grande estadista, escritor, poeta ou músico. Como não podia deixar de ser, o autor mostra que esta realidade é totalmente adversa da realidade do resto do mundo – o autor refere a América para nos lembrar que as suas ruas são numeradas e que o seu espírito está orientado para o futuro.

Sobre o quarto axioma, Steiner diz-nos que somos, enquanto Europeus, a herança de Atenas e Jerusalém: a Europa negoceia, moralmente, intelectualmente e existencialmente, as ideologias e valores que surgem dos pensadores de ambas as cidades. Por isso mesmo, permitiu-se o surgimento da música, da matemática e do pensamento especulativo, como caracterizadores da Europa e da sua identidade. Aquilo que a molda é reflexão da conjugação entre a filosofia, vocabulário e raciocínio, mas também da matriz bíblica: a sabedoria grega moldou a forma de pensar e ver o mundo, ao mesmo tempo que a fé cristã e a sua história e valores influenciaram a forma de crer e sentir dos europeus.

Finalmente, temos a “consciência escatológica” da Europa, que traz consigo a ideia de auto-destruição e de finitude da sua própria existência. O pensamento Europeu traz consigo, diz-nos Steiner, a intuição de que, um dia, irá ruir sobre a sua grandeza, riqueza e complexidade, associando este término a uma ideia de tragédia.

Steiner mostra uma certeza tristeza e nostalgia, ao verificar que os fenómenos de globalização têm vindo a diluir esta vincada identidade europeia, tal como ele a caracteriza. O autor considera que o sonho europeu, que defendia e idealizava, pode estar em risco nos dias que correm. Para evitar que isto aconteça, é urgente que a Europa se reafirma e às suas convicções, de forma a travar aquilo a que Steiner chama a “americanização do planeta”.

Aquilo que nos é mostrado ao longo de “A Ideia de Europa” traz-nos a pertinência de cada um de nós, europeus, pensar no legado e cultura que antecedeu a Europa como a temos hoje em dia e recordar aquilo que é a sua personalidade e identidade. Fundamentalmente, aquilo que a obra nos passa é que conhecer o passado e compreender o presente se torna a única âncora para projetar o futuro e poder, assim, moldá-lo. Assim, qualquer intelectual que prese a sua história e pertinência na história da Europa deverá refletir sobre as palavras de Steiner, uma vez que “a vida não refletida, não é efetivamente digna de ser vivida” e cabe a nós, “filhos (…) confundidos de Atenas e Jerusalém”, encabeçar essa instrospeção e fazer jus à identidade europeia.